Tendências da Medicina Veterinária da Década 2020 a 2029 – Parte 1

Traçando uma linha histórica desde o início da vida humana, esse artigo que será dividido em quatro partes mostrará todas as tendências e desafios que a Medicina Veterinária enfrentou e enfrenta para contar e aprimorar sua trajetória.

História Veterinária

O Papiro de Kahoun encontrado no Egito em 1890 descreve a arte de curar animais ocorridos há 4.000 a.C, indicando procedimentos de diagnóstico, prognóstico, sintomas e tratamento de doenças de diversos animais.

A história de clínica médica veterinária começou por volta de 2.200 a.C, quando o Rei Azoka construiu na Índia o primeiro hospital veterinário que se tem registro e ainda mandava matar todo súdito que maltratasse um animal.

Menções nos códigos originários da antiga Babilônia, capital da Mesopotâmia relatam referências a remunerações e responsabilidades atribuídas aos “Médicos dos Animais”.

Na Europa, os primeiros registros sobre a prática da Veterinária originam-se da Grécia no século VI a.C. onde eram reservados cargos públicos aos que praticavam a cura dos animais – Hipiatras. Na era Cristã em meados do século VI, onde hoje é Istambul, foi encontrado um tratado enciclopédico chamado de Hippiatrika contendo 420 artigos sobre doenças e a criação de animais, sendo que 121 foram escritos por Apsitros, considerado no mundo ocidental o pai da Medicina Veterinária.

Formou-se em Medicina e tornou-se posteriormente veterinário-chefe do exército de Constantino O Grande. Entre os assuntos relatados por Apsitros destacam-se o Mormo, Tétano, Enfisema, Cólicas e Fraturas, os Unguentos. Na Espanha, anos depois, foram estabelecidos os princípios fundamentais de uma medicina animal racional, culminando com a criação de um “Tribunal de Proto-albeiterado” onde eram examinados os candidatos ao cargo de Albeitar. Em língua portuguesa o termo foi traduzido para Alveitar, sendo usado em 1810 para designar os veterinários práticos da Cavalaria Militar do Brasil colônia.

A Medicina Veterinária moderna começou a desenvolver-se com a primeira escola de Veterinária do Mundo em Lyon – França criada pelo Hipologista e advogado Claude Bougerlat em 04/08/1761 com 8 alunos.

Em 1766 também na França foi criada a segunda escola de veterinária do mundo em Alfort – Paris. A história da Medicina Veterinária no Brasil tem início com a chegada da família real em 1808, mas só em 1875 quando D. Pedro II viajou para a França – Alfort e assistiu a uma conferência de um veterinário e fisiologista Dr. Collin se interessou em criar no Brasil entidade semelhante a encontrada por lá. Mas somente em 1913 e em 1914 foram abertas as primeiras instituições de ensino da veterinária do Brasil, A Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária e a Escola de Veterinária do Exército, respectivamente e ambas no Rio de Janeiro.

Desde 1917, data da formatura da primeira turma de Medicina Veterinária, não havia nenhuma regulamentação da profissão.

Somente em 9 de setembro de 1933 através do Dec. 23.133 do Presidente Getúlio Vargas é que foram regulamentadas os campos privativos da profissão.

Em 1968 entra em vigor a Lei 5.517 que dispõe sobre o exercício da profissão de médico-veterinário. Hoje o Brasil conta com 363 cursos de Medicina Veterinária, colocando no mercado de trabalho cerca de 10.000 novos profissionais por ano.

Nos EUA existem cerca de 30 faculdades. Na Alemanha 4 faculdades. No Reino Unido 7 faculdades. Na Argentina 13 faculdades. Em São Paulo mais de 70. No Rio de Janeiro 15, colocando no mercado de trabalho cerca de 400 veterinários por ano.

A história e fortalecimento da clínica de pequenos animais iniciou-se a partir de 1957 com a criação no Rio de Janeiro do Clube dos Clínicos Veterinários, alterado sucessivamente para Sociedade Brasileira de Clínicas Veterinárias, Sociedade Nacional de Clínicas Veterinárias para posteriormente chamar-se Anclivepa (Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais), nome que perdura até os dias de hoje.

Moisés Frimmer, Mario da Fonseca Xavier e Alberto Carvalho Filho foram os grandes baluartes da Clínica de Pequenos Animais do Brasil, tendo seus nomes lembrados e reverenciados até hoje.

A partir daí o desenvolvimento de cursos, atividades técnico-científicas, socioeconômicas e culturais foram aparecendo e mostrando a importância de uma entidade de classe para a categoria profissional que engatinhava no mercado veterinário.

A criação de Anclivepas Regionais foi consequência por todo o país e, apesar de todo o sucesso, sentia-se a necessidade de uma “entidade mãe” que congregasse as regionais e em 2002 foi criada a Anclivepa Brasil, sendo hoje a maior entidade de educação continuada da Medicina Veterinária Brasileira.

 

Tendência 1

Medicina Veterinária da Vida sobrepõe a Medicina Veterinária da Morte

Desde seu surgimento, a Medicina, como ciência da doença, aumentou a doença e reforçou o poder financeiro da indústria de medicamentos. Nos dias atuais, a Medicina como ciência da vida aumentou a saúde, a longevidade e a prevenção de doenças. Tal tendência tem reforçado, dentre vários novos aspectos, que os organismos dos seres humanos e o dos animais não são formados por fármacos e sim por nutrientes. Considerando isso, a nutrição e os suplementos nutricionais podem ser usados para os mesmos problemas que costumam ser tratados com grandes quantidades de medicamentos de forma individual ou como coadjuvantes.

Cada vez mais existem pesquisas científicas que argumentam e comprovam de forma convincente que a abordagem nutricional é mais bem-sucedida, menos cara e infinitamente mais segura. Portanto os suplementos nutricionais de prescrição, com resposta rápida e direcionamento, são aqueles nos quais identificamos nutrientes biologicamente ativos sobre os processos bioquímicos do metabolismo. Tais suplementos representam uma forma de cuidarmos da saúde, de buscarmos a longevidade, a melhor performance e a prevenção de doenças em animais.

Considerando isso, podemos dizer que por meio de suplementos nutricionais podemos dirigir eventos químicos para as células, representando desta forma um importante instrumento para pacientes portadores de doenças.

 

Tendência 2

Terreno Biológico e Modulações Nutricionais

A frase do Pai da Medicina, Hipócrates, nunca esteve tão moderna, “Que seu remédio seja seu alimento e que seu alimento seja seu remédio!”, o terreno biológico de um cão ou gato contém mais de 700 trilhões de células e 1 quatrilhão de micro-organismos e pode ser modulado de forma nutricional para reversão da inflamação através de ácidos graxos, para controle do estresse oxidativo através de antioxidantes, para reversão da disbiose através de probióticos, entre outras modulações. Neste sentido a raiz que leva tudo ao terreno biológico é o intestino, e, tudo relacionado a este órgão será a grande tendência da década. Modular nutricionalmente é a nova ordem!

 

Tendência 3

A Medicina alternativa passará a ser a Medicina principal

Diversas áreas cresceram drasticamente nos últimos anos e prometem dominar a Medicina Veterinária da próxima década isoladamente, combinadas entre elas ou com a Medicina alopática. Áreas como a nutrologia & nutrição clínica, a fitoterapia, a homeopatia, a fisioterapia, a quiropraxia, a aromaterapia e os óleos essenciais, a acupuntura, o uso de células-tronco devem se consolidar fortemente para aqueles que se especializarem de forma qualificada.

Terapias conservativas devem crescer drasticamente e o uso de medicamentos ou procedimentos invasivos deverão ser considerados como terapia alternativa, muitas vezes em doses menores que as atualmente convencionadas.

 

Tendência 4

Consciência sobre riscos dos xenobióticos em busca da Saudabilidade perene

Em busca de longevidade sem doenças crônicas e com qualidade de vida, médicos-veterinários e tutores exigirão alimentos, produtos e embalagens livres de xenobióticos que tragam riscos ao longo da vida. O crescimento de oportunidades para negócios relacionados à produção de alimentos naturais balanceados para cães e gatos aumentará exponencialmente de forma regional e as indústrias produtoras de alimentos se adequarão para não perder mercado.

 

Tendência 5

Era da verdade – Eficácia (fazer certo) sobrepõe Eficiência (tentar certo)

A última década foi marcada pelo poder do que é falado mais vezes virar verdade, independente se é mentira ou se é verdade, ganhou quem falou mais. A internet influenciou bastante neste sentido tanto pelos buscadores como Google, pelos influenciadores Youtubers e também pelas mídias sociais.

Os problemas relacionados a produtos aparentemente inócuos e que depois trouxeram surpresas clínicas extremamente desagradáveis, somadas à maturidade do mercado, apontam claramente que estamos entrando numa era de forte discernimento onde a verdade prevalecerá. Todo propósito mal formulado não se sustentará ao longo do tempo! A exigência de qualificação para operar no comércio de produtos e serviços será pré-requisito; e os influenciadores sem base desaparecerão como um modismo temporário.

Os procedimentos de creditação de fornecedores devem crescer drasticamente baseado em processos rigorosos e sérios e não simplesmente preços baratos ou em patrocínios financeiros, onde os médicos-veterinários tomarão como base o resultado eficaz do ponto de vista médico para aquisição. Não serão aceitos mais erros laboratoriais pré-diagnósticos (desde a coleta e transporte) que afetam drasticamente o diagnóstico. Assim como diferenciais tecnológicos em produtos comerciais desde a matéria-prima até a embalagem que tragam maior resultado e segurança serão bastante valorizados!

Para responder aos tutores abastecidos de informações das mais diversas procedências, os médicos-veterinários precisarão estabelecer padrões e processos de conduta com lastro técnico e científico amplo voltado para todas as possibilidades que a Medicina Veterinária pode oferecer para cada paciente.

 

Tendência 6

Digital através do Omnichannel

O grande desafio da década está nesta tendência! A mistura do mundo físico e do digital é algo concreto e ainda mais aplicável no segmento veterinário dos pets no qual em diversas situações se faz necessário a interface com estrutura física, com humanos e com animais. A inteligência artificial e as plataformas de transformação digital serão as grandes impulsionadoras deste movimento que será apresentado através do omnichannel (presença em diversos canais simultaneamente), provendo a possibilidade para as empresas de produtos e serviços se disponibilizarem através de interfaces físicas e digitais.

Os marketplaces de hoje certamente serão aprimorados para plataformas onde poderão ser prestados serviços de captação de clientes para indústrias, importadoras, lojas, pet shops, clínicas veterinárias, consultórios, laboratórios e para o tutor… Tudo de forma integrada.

A inteligência artificial certamente dará o toque humano nas relações digitais. O tempo para todos do segmento deverá ser otimizado, com isso a tendência é que os preços sejam cada vez mais justos e os resultados otimizados para todos os envolvidos.

O marketing de conteúdo certamente fluirá também por estes meios. As plataformas que dominarem o segmento poderão ousar migrar comunicação entre os envolvidos do segmento como médicos-veterinários, prestadores e tutores para elas de forma otimizada e inteligente.

 

 

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