Os cuidados na criação de felinos6 min para ler

Atualmente os animais de companhia vêm recebendo um tratamento especial, eles passaram a ter status de membros da família, com direito aos mais sofisticados tratamentos e cuidados e, por isso, a preocupação com sua origem começa a aparecer. Tal mudança no cenário tende a eliminar os criadouros de “fundo de quintal”, onde os animais são considerados “máquinas de produção” e cuja principal preocupação é com a parte econômica.

Por isso, entrevistamos a criadora Ana Knoll, que cria gatos da raça Ragdoll há seis anos e cães há mais de 30 anos, para mostrar como uma paixão pode se tornar lucrativa, se trabalhada com amor e dedicação. Confira!

 

Negócios Pet: Há quanto tempo você é criadora?

Ana Knoll: De cães, de 1982 a 2011. Já gatos, desde 2012.

 

NP: Qual a raça?

AK: Ragdoll.

 

NP: Quais as particularidades do Ragdoll?

AK: Gato de pelagem semilonga e olhos azuis intensos. Muito manso, gosta de companhia e costuma seguir os donos pela casa. Uma raça calma e nada agressiva. Interage bastante com o dono, aceitando brincadeiras ou relaxando a seu lado. O nome da raça, que na tradução significa boneca de pano, vem da caraterística do animal se relaxar totalmente quando o pegamos no colo, semelhante a uma boneca de pano. Em comparação a gatos sem raça definida, Ragdolls são menos independentes e não tão ágeis. Um Ragdoll dificilmente conseguiria sobreviver por muito tempo em situação de abandono.

 

NP: Quantos gatos você tem atualmente?

AK: 12.

 

NP: Qual a metragem e onde fica seu gatil?

AK: Meu gatil é minha casa. Um bom criador jamais cria em gaiolas ou espaços pequenos. Moro em uma casa com 1.200 m² de terreno e os felinos têm acesso à casa toda, com exceção do jardim da frente onde tenho meus cães de porte grande (Afghanhounds). Possuo dois espaços fechados para eles, com aproximadamente 30 m² cada, totalmente adaptado com prateleiras, arranhadores e brinquedos, onde mantenho os machos quando há fêmeas no cio. E também os filhotes a partir de 50 dias. Antes disto os gatinhos ficam conosco, em nossos quartos, e sempre juntos com a mãe.

 

NP: Por que entrou no mercado?

AK: Porque gosto de animais. Desde criança convivo com cães e gatos, além de possuir outros pets como peixes, roedores, pássaros. Eu e meu marido somos ainda muito envolvidos com cinofilia, pois somos árbitros internacionais de todas as raças pela CBKC-FCI. Porém desde que iniciamos a criação de Ragdolls, tivemos que optar e paramos com a criação de cães, pois o investimento e tempo dedicado, quando se foca na qualidade de uma criação, ficaria muito difícil manter criando ambos, em nossa opinião. Seguimos julgando exposições caninas pelo Brasil e pelo mundo, mas na criação hoje a dedicação é totalmente aos felinos!

 

NP: O que é preciso saber para se tornar criador?

AK: Em primeiro lugar, ter consciência e convicção que de fato goste de animais, a tal ponto de sentir necessidade de tê-los ao lado as 24 horas de seu dia. Criação de animais não é negócio, é vocação. Você jamais será um cantor de sucesso se não tiver uma boa voz. Se você possui esta principal característica, com esforço e dedicação você terá êxito na criação. Daí pra frente é escolher uma raça que se adapte ao seu estilo de vida e a seu temperamento. O investimento dependendo da raça pode ser alto, mas para um bom criador cada investimento feito é um novo desafio, em se tratando de novos exemplares, e uma grande satisfação quando da melhoria das instalações para seus animais. Há que saber lidar com perdas que envolvem sentimentos e emoções. Perdas materiais são mais fáceis de serem superadas. Mas animais são vidas em primeiro lugar.

 

NP: Qual é o erro mais comum cometido por quem inicia nesse setor? Como evitá-lo?

AK: É a ilusão de ganhar dinheiro fácil. Criação envolve muita dedicação. É necessário bom conhecimento da raça em questão, como padrão, temperamento, suscetibilidade a doenças e estudar um pouco de genética. Participar de exposições para poder assim comparar seu plantel ao de outros criadores, usando senso crítico para saber como melhorar seu plantel. Tudo isto somado ao amor pelos animais. Apenas ter o capital para investir em exemplares não é suficiente para o êxito. É comum vermos novos criadores, que às vezes investem em animais de boa procedência, mas o desconhecimento dos fatores acima mencionados fazem com que desistam da criação.

 

NP: Quais as principais diferenças entre se criar gatos e cães?

AK: Entre cães as raças se distinguem em porte, pelagem, temperamento e função, portanto espaço físico vai depender de cada raça. Gatos não necessitam grandes espaços, mas o ideal nesta criação é fazê-la da forma menos comercial possível, pois gatos ao contrário dos cães não aceitam certas imposições, como gaiolas ou alimentação inadequada. Em ambos os casos, é muito importante que padreadores e matrizes tenham boa qualidade de vida, para que possam procriar de forma saudável, gerando filhotes também saudáveis e com bom temperamento.

 

NP: Qual o “pulo do gato” nesse negócio?

AK: Gostar de animais de raça, ter interesse em saber das particularidades de sua raça, conhecer profundamente o padrão e focar a qualidade dos exemplares, tanto em termos raciais quanto no temperamento, que também faz parte deste padrão. As pessoas, ao optar por um animal de raça, pagam por desejar um animal com características predefinidas. Quanto mais o animal se encaixa nos quesitos do padrão, maior a satisfação do comprador!

 

NP: Para montar um gatil é preciso, em média, quanto de verba?

AK: Nunca coloquei no papel meus gastos, porque como já disse não encaro como um negócio e sim como um hobby que, por consequência do tempo despendido a eles, acabou me gerando lucros em algum momento e prejuízos em outros. Porque mesmo que passe um curto tempo sem filhotes para venda, ainda terei meus animais para alimentar e tratar da melhor forma possível, da maneira como merecem. O acasalamento entre felinos não é tão fácil. A cruza é natural, não sendo possível inseminação, como é feito com outros animais. O planejamento das ninhadas nem sempre sai como desejamos. Iniciei a criação trazendo exemplares da Europa, que custaram pelo menos EU 2000 cada um. Soma-se com gastos mensais a alimentação super premium, acompanhamento veterinário, medicações, filiação a clubes e/ou federações e um espaço onde possam se exercitar e viverem de forma digna!

 

NP: Em quanto tempo é previsto o retorno financeiro?

AK: No meu caso, com os gatos, pelo menos 3 anos. Até hoje o que ganho com eles reverto em novos exemplares, visando a melhoria ou simplesmente manter a qualidade dos filhotes. Criar é isto, uma procura sem fim na perfeição de uma espécie. Caso um dia venha a ser unicamente um negócio, com certeza não será por opção minha. E neste dia não estarei mais criando.

 

 

 

 

 

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