É possível adestrar gatos?5 min para ler

Treinar gatos domésticos pode ser um grande desafio para os tutores.

Os gatos domésticos vêm conquistando cada vez mais o seu espaço nas casas (e nas camas) brasileiras. Com o convívio mais próximo, é natural que alguns problemas de relacionamento comecem a aparecer. Ou o gato destrói o sofá ou os tutores percebem que tem xixi pela casa toda. Às vezes, até a visita acaba saindo toda arranhada ou os vizinhos reclamam que a sinfonia de miados é constante. Aí surge a dúvida: é possível adestrar gatos?

Para responder, precisamos primeiro analisar o que as pessoas entendem por adestrar. Se você tem em mente que o adestramento consiste em ensinar comandos do tipo “senta” e “deita”, a resposta é “sim! É possível adestrar gatos”, mas o adestramento vai muito além.

 

O que de fato é “adestrar”?

O adestramento é um trabalho de modificação comportamental de todos os membros que compõem a família (humanos e animais). Por isso, adestrar significa muito mais do que ensinar o animal a sentar e deitar. Os comandos são muito importantes durante o adestramento, mas eles representam apenas uma parte do trabalho. Adestrar envolve uma reeducação do modo como os tutores lidam com o animal, já que muitas vezes os problemas comportamentais ocorrem justamente porque há uma falta de comunicação entre eles.

O humano fala uma língua e o animal fala outra. Por isso, o trabalho do adestrador ou do comportamentalista é tão importante. O profissional é o responsável por facilitar essa comunicação e por reeducar os dois lados.

 

Adestrando gatos

Muitas vezes, os problemas que os tutores de gatos enfrentam com os seus animais nada mais são do que comportamentos naturais da espécie felina, mas que estão mal direcionados dentro do ambiente, ou seja, o gato muitas vezes está fazendo o que muitos fazem: arranhando, caçando, pulando, escalando, marcando território, etc. No entanto, isso nem sempre é bem-aceito pelas pessoas. Por serem muito mais enigmáticos que os cães, os gatos podem até passar uma impressão de que são indiferentes a tudo, mas na verdade eles estão atentos a qualquer movimento.

Treinar gatos domésticos não é, digamos assim, um trabalho fácil, já que pode ser um grande desafio para os tutores e até mesmo para alguns profissionais. Por isso é importante que entendamos, em primeiro lugar, que gatos não são cães. Pode parecer óbvio, mas muitos dos nossos hábitos ao lidarmos com gatos são herdados do modo como tratamos os cães. E é aí que as pessoas “erram a mão”!

 

O território é importantíssimo!

Além de predadores de pequenas presas, os gatos domésticos também são presas na Natureza. Isso por si só já justifica os hábitos naturais de escalar, se esconder, enterrar suas fezes e urina, observar o ambiente de cima, entre outros. O objetivo é fugir ou não chamar a atenção de um possível predador.

Por conta disso, quando treinamos um gato não lidamos somente com o animal, modificamos também o seu ambiente para que ele possa ter um território que melhor se adeque às suas necessidades, com arranhadores grandes, prateleiras ou móveis especialmente próximos às janelas (com telas), tocas, esconderijos, entre outros.

 

Muita atenção aos recursos

O território felino é naturalmente dividido por funções. O gato na Natureza separa os ambientes em que ele caça e come, dos que descansa, brinca e faz as suas necessidades. Isso significa que, para melhorar o comportamento dos nossos gatos, devemos pensar também nos recursos que disponibilizamos a eles.

Nossa casa precisa estar dividida em pelo menos três ambientes distintos: alimentação, eliminação e descanso. Essas áreas devem ser separadas umas das outras. Não podemos acumular todos os recursos do gato no mesmo ambiente, ou seja, nada de colocar a caixa de areia ao lado do pote de comida, muito menos junto da caminha.

Para planejar melhor, faça um exercício rápido: desenhe o mapa da sua casa e coloque onde estão todas as coisas do seu gato, como a caminha, comedouro, bebedouro, caixas de areia, brinquedos, arranhadores, prateleiras, etc. Agora, olhe para o papel e veja no mapa o tamanho da residência e onde estão todos estes recursos. Se tudo estiver acumulado em um cantinho ou em um só cômodo, é melhor você começar a reorganização do local, de preferência separando e espalhando os itens pela casa toda.

 

E o treinamento, como fica?

Vamos lembrar novamente que o objetivo de treinar um animal é proporcionar uma modificação comportamental. Entretanto, se o seu gato estiver incomodado com o ambiente em si (e acredite, muitos estão), só de você reorganizar os recursos o nível de estresse dele pode baixar e o comportamento consequentemente mudar.

É claro que tudo vai depender de cada caso, mas se o seu gato pudesse falar com certeza diria que é muito mais agradável ter uma prateleira aqui ou ali para observar melhor o ambiente ou que ele precisa ter um refúgio para que possa se esconder de certas visitas.

Agora, que tal remanejar a casa e procurar ter um ambiente mais harmônico com o bichinho de estimação? Se precisar de ajuda, conte com profissionais. Boa sorte!

Juliana Sant’Ana é especialista em comportamento animal, adestradora e membro do Grupo de Estudos Científicos da Cão Cidadão.

 

 

 

Comentários
Carregando...