Noções básicas de adestramento5 min para ler

Elas são de extrema importância para os médicos-veterinários.

Quando vamos adquirir um animal de estimação, nossa maior preocupação é com a sua saúde e, muitas vezes, acabamos nos esquecendo de que são animais que possuem instintos que vêm muito antes de sua domesticação. Comportamentos que, para nós, são considerados errados ou socialmente inadequados, para eles podem ser algo normal, proveniente de seu instinto, como cavar ou caçar.

No período de sociabilização, começam as primeiras experiências e é importante que seja apresentado ao animal estímulos como sons, objetos e pessoas diferentes. É nessa época que se inicia a fase profilática, um conjunto de medidas que visa a prevenção de doenças, podendo começar de cinco a oito semanas de vida, dependendo do animal.

 

Manuseio correto e cuidados

A primeira visita do pet ao veterinário deve ocorrer de forma muito positiva e agradável para que não o traumatize, pois, caso isso ocorra, esse trauma pode ser potencializado, tornando-se um problema comportamental que pode oferecer riscos não só para o veterinário durante a consulta como também a outras pessoas.

Para isso, é de extrema importância que o médico-veterinário tenha noções básicas de adestramento para passar essas orientações aos tutores, além de poder utilizá-las durante a consulta de forma a ajudá-lo a lidar com pets agressivos, medrosos e agitados.

Para ganhar a confiança do animal e poder examiná-lo sem que lhe cause uma experiência negativa, o veterinário pode oferecer petiscos – a princípio dando-os “de graça”. À medida que o especialista percebe que o animal está focado na recompensa, deve recompensá-lo apenas quando este apresentar os comportamentos desejados. Esses petiscos podem ser levados para a consulta pelo tutor, conforme orientação do veterinário.

Além disso, os tutores também podem e devem realizar alguns treinos em casa para que a consulta fique menos estressante. É possível simular, por exemplo, os treinos de contenção e manuseio, como exames nas orelhas, dentes e unhas. Para que o pet não se assuste na hora da injeção, pressione uma seringa sem agulha no corpo do animal e vá lhe premiando, para que este momento seja associado a coisas positivas.

O veterinário também pode orientar que os tutores tenham cuidado com relação a suas reações durante a consulta, como acariciar o animal que apresenta um comportamento inadequado após tomar uma vacina. Isso porque o bicho pode interpretar este gesto como uma recompensa pelo seu comportamento “ruim”.

 

Importância da parceria

Médicos-veterinários são os parceiros ideais para aconselhamentos sobre problemas comportamentais, pois terão contato frequente com os tutores nos primeiros meses de vida do animal, sendo assim uma fonte de informações importante sobre saúde preventiva e aconselhamento comportamental, visto que desvios comportamentais podem ser o primeiro sinal de muitas doenças. Eles devem saber diferenciar o comportamento normal do anormal de um animal, proporcionando uma intervenção precoce e orientando o tutor a procurar especialistas comportamentais.

O profissional pode oferecer aconselhamento comportamental e indicar um adestrador para melhorar problemas como pulos excessivos, coprofagia, ato de ingerir fezes próprias ou de outros animais, escavações, latidos, atos de pedir, remexer em lixo, ataques repentinos, mastigação, mordeduras por brincadeira, além de treinamento de filhotes e treinamento doméstico, sendo estas orientações direcionadas a tutores de cães.

No caso de gatos, os adestradores podem fazer treinamento do uso de caixa de areia, mastigação de plantas, saltos sobre móveis, escaladas, arranhaduras e atividades noturnas. Os benefícios são mais e melhor qualidade de vida na relação tutor/animal e a redução das incidências de abandono e eutanásia.

Animais adquiridos por razões erradas, sem planejamento ou sem os treinos adequados, frequentemente desenvolvem problemas comportamentais que podem colocar em risco a vida das pessoas, de outros animais de estimação e do próprio pet.

O ideal para uma posse responsável seria, antes da aquisição do animal, buscar um aconselhamento profissional oportuno e preciso, com o objetivo de melhorar o relacionamento tutor/animal, com orientações sobre saúde e possíveis problemas comportamentais, como agressividade, comportamento destrutivo, necessidades fora do lugar, vocalização excessiva, problemas de adaptação no novo lar.

 

Ações que ampliam o conhecimento do médico

Para promover o conhecimento sobre noções básicas de adestramento, os cursos de graduação veterinária poderiam oferecer um conteúdo comportamental voltado para a identificação e prevenção desse tipo de problema.

Como comportamentos típicos das espécies, princípios de aprendizado e treinamento, contenção e criação de animais, comportamento anormal e suas causas, considerações diagnósticas para animais com sinais de desvios comportamentais e intervenções médicas e cirúrgicas que podem ser utilizadas no tratamento desses problemas.

Isso porque o médico-veterinário é o único profissional capaz de oferecer uma ampla variedade de serviços comportamentais, incluindo diagnósticos médicos, intervenção cirúrgica e terapia medicamentosa.

É importante que ele incorpore em suas práticas clínicas procedimentos de orientação comportamental, como parte essencial da prestação de serviços de saúde, promovendo um acompanhamento saudável e completo, porém é necessário que conheça suas limitações e busque dominar uma área problema de cada vez.

Com a assistência do médico-veterinário em aconselhamento comportamental e a ajuda de um profissional especializado na área (adestrador), é possível intensificar o comprometimento e o grau de cuidado com os animais, melhorando sua relação com os tutores, aumentando a qualidade de vida e, consequentemente, diminuindo a quantidade de animais rejeitados ou sacrificados.

Letícia de Marco, franqueada e adestradora da Cão Cidadão.

 

 

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